Estava eu ontem, num desses dias de folga inesperada, ouvindo e cantando uma música de João do Vale que particularmente gosto muito: Ouricuri, em uma versão cantada com Clara Nunes. Esta canção fala das tradições dos sertanejos, dos segredos e experiências por eles adquiridos e como, mesmo sem saber ler nem escrever, se tornam pessoas sábias e conhecedoras das artimanhas da natureza. É o que nos faz pensar a respeito dos livros, revistas e jornais, apontados como formas principais (às vezes tidas como únicas) de se obter conhecimento. No Brasil dos analfabetos, isso não acontece. Uma prova disso: o próprio cantor e compositor João do Vale era analfabeto, e até hoje é tido como ícone no mundo da música pelo seu talento.
Conversando sobre isso com Gildson Souza, o colaborador esporádico oficial do Badulaques, acabou brotando um texto no solo fértil da mente deste rapaz (uau! que poético! :P). Trouxe então pra vocês a letra da música Ouricuri, e pra quem nunca ouviu, fica a sugestão. Logo abaixo, o texto de Gildson, comentando sobre o lado social por trás dos versos de João do Vale.
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Ouricuri (O Segredo do Sertanejo)
(Composição: João do Vale/José Cândido)
Ouricuri madurou ô é sinal
Que arapuá já fez mel
Catingueira fulôro lá no sertão
Vai cair chuva granel
Arapuá esperando
Ouricuri "maduricer"
Catingueira fulôrando sertanejo
Esperando chover
Lá no sertão, quase ninguém tem estudo
Um ou outro que lá aprendeu ler
Mas tem homem capaz de fazer tudo doutor
E antecipa o que vai acontecer
Catingueira fulora vai chover
Andorinha voou vai ter verão
Gavião se cantar é estiada
Vai haver boa safra no sertão
Se o galo cantar fora de hora
É mulher dando fora pode crer
Acauã se cantar perto de casa
É agouro é alguém que vai morrer
São segredos que o sertanejo sabe
E não teve o prazer de aprender ler
Ouricuri madurou ô é sinal
Que arapuá já fez mel
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A sabedoria além dos livros
Por Gildson Souza
Não há duvidas que o acesso à educação seja fator determinante para a expansão do conhecimento de um indivíduo. Mas até onde a ausência de uma educação “básica”, como ler e escrever, pode impedir que alguém conheça algo ou aprenda alguma coisa?
De acordo com o Minidicionário da Língua Portuguesa, de Sérgio Ximenes, um dos possíveis sinônimos de conhecimento é erudição. De encontro a isso, João do Vale, grande músico maranhense, escreveu a música “Ouricuri”, onde ele retrata a falta de estudo do sertanejo que não aprendeu a ler. Porém, apesar disso, entende bem a realidade onde vive e “antecipa o que vai acontecer” interpretando os sinais que a natureza lhe mostra.
Sendo assim, podemos notar que há uma nítida distinção naquilo que chamamos de conhecimento. Há o acadêmico, científico aprendido nas escolas (onde se encaixa o “saber ler e escrever”) e outro mais empírico, aprendido com a experiência. E elas existem sem que uma dependa da outra, pois, com a música diz, o sertanejo “nunca teve o prazer de aprender ler”, mas nem por isso é menos sábio que o letrado.
Então, será que um analfabeto com uma “bagagem” dessa pode ser considerando ignorante? Ou melhor: o que seria a ignorância hoje?
Gostaram?
Obra: Amolação interrompida, de Almeida Júnior.
Até!
Badulaques constata: música é tudo!